Musicas da Semana

terça-feira, 26 de novembro de 2013

As raízes do rock do blues rural à Elvis Presley



O livro As raízes do rock, de Florent Mazzoleni (Companhia Editora Nacional, 223 páginas R$ 49,90) traça a trajetória do rock’n’roll, dos campos de algodão do Sul dos Estados Unidos até o estouro da boiada, em 1956, quando Elvis Presley, com Heartbreak hotel, e depois Don’'t be cruel e Hound dog, começou a abarrotar os cofres da RCA, que comprou seu passe à pequena Sun por espantosos 35 mil dólares. O livro ostenta uma riqueza de ilustrações que, por si só, já contam a história. São cartazes, fotos promocionais, recortes de publicações da época, anúncios das diversas gravadoras em que foi fermentado o rock.
As raízes do rock (com boa tradução de Andrea Gotlieb Castro Neves) tem capítulos sucintos em textos, mas é extremamente bem informativo, abordando facetas a que boa parte das obras assemelhadas não dão atenção. As pequenas gravadoras, por exemplo. Ao contrário do Brasil onde raramente gravadora tem som próprio (com as inevitáveis exceções), nos EUA, principalmente os selos dedicados aos race records (discos gravados por negros) – King, Imperial, Aladdin, Sun, Peacock, Aristocrat – foram algumas das gravadoras que hospedaram os artistas, cuja música desaguaria no híbrido rock and roll.
A King Records era de Cincinnati, Ohio, como a maioria das empresas nanicas do ramo, era iniciativa de um judeu, Syd Nathan, que contratava brancos e negros, estes últimos raramente gravavam música de branco. Porém os grupos brancos estavam liberados para gravarem rhythm and blues e country. Foi desta aproximação que surgiu um novo ritmo. Na King Records gravaram, entre outros, Little Willie John e Hank Ballard, este o autor de The twist, que deu origem à dança e a um dos maiores sucessos da era do rock and roll, com Chubby Checker. Porém o maior nome da King foi James Brown, que ali começou em 1955.
A Imperial, de Los Angeles, foi a casa de Fats Domino, um dos mais influentes cantores da era pré-rock and roll (Paul McCartney fez Lady Madonna não apenas influenciado por ele, mas para o próprio Fats Domino gravar). Também da Imperial foi o seminal T-Bone Walker, pioneiro no uso da guitarra elétrica no blues. Vinte e cinco anos antes de Jimi Hendrix, ele já tocava com o instrumentos nas costas, entre as pernas, ou puxava as cordas com os dentes. Sua guitarra a Gibson Es-520, na época chamada de spanish electric guitar, por sua influência, foi adotada por B.B. King. Com exceção da Sun, de Memphis, a gravadora onde se delineou com mais clareza o rock and roll foi a Specialty, também de Los Angeles. Entre seus astros estavam Lloyd price, e Little Richard, um dos pais do rock.
A Sun Records já foi assunto de dezenas de livros. O rock’n’roll teria surgido sem ela, mas não seria o mesmo. Em Raízes do rock, a Sun e a música de Memphis merecem um capítulo à parte. Sam Phillps, o dono da Sun Records, foi um visionário: “Com a chegada da modernidade nascida no pós-guerra, com máquinas colheitadeiras de algodão gigantes, com as mudanças que estavam acontecendo na sociedade, eu sabia que o blues não duraria para sempre em sua forma mais pura” (de uma entrevista de Phillips transcrita no livro). A Sun chegou a ter no cast, ao mesmo tempo, cinco pais do rock and roll: Elvis Presley, Carl Perkins, Roy Orbinson, Jerry Lee Lewis e Johnny Cash.
“Em 1956, um instituto de pesquisas americano mostrou que 13 milhões de jovens dispunham de uma renda anual total de sete bilhões de dólares... O adolescente da classe média dispunha de 10,55 dólares por semana. Essa renda média era desmedida em relação às décadas anteriores”.
Dois objetos de consumo contribuíram para que Elvis Presley vendesse milhões e milhões de discos. Duas invenções básicas. O compacto em 45 rotações, comercializado a partir de 1949, foi feito para o rock and roll. Bem mais baratos do que os bolachões de 78rpm, custavam apenas 99 centavos de dólar, qualquer garoto podia comprar um. Ou colocar uma ficha na jukebox para ouvir sua música preferida.
Depois veio o radinho de pilha. O primeiro transistor portátil foi posto à venda em 18 de outubro de 1954. Foi uma revolução. Com ele, o adolescente não precisava mais escutar a música dos pais, no rádio da sala. Levava o radinho a pilhas para onde quisesse, e ouvia nele o que desejasse, principalmente rock and roll e emissoras dedicadas ao rhythm and blues.
As raízes do rock é de um poder de concisão admirável. Em 12 capítulos curtos, passeia pelos diversos afluentes que desaguaram num grande rio chamado rock and roll, com capítulos mais longos para Memphis (Berço do rock ‘n’roll), Os reis do rock (Bill Halley /Fats Domino), Elvis e demais príncipes da corte (O Rei Elvis, that’s all right mama), até o epílogo, intitulado A morte do rock‘n’roll. A data de óbito é convencionada como 3 de fevereiro de 1959, quando caiu o avião que levava Buddy Holly (e também Richie Valens e Big Bopper), sem deixar sobreviventes.
As raízes do rock acrescenta ao atestado a entrada de Elvis Presley no Exército, em 1958, a conversão de Little Richard ao evangelho, durante um voo para a Austrália, e a prisão de Chuck Berry, por atravessar ilegalmente a fronteira do Missouri com o Kansas, acompanhado e uma menor de 14 anos.
Hoje o rock é a música popular do mundo. Nos Estados Unidos, onde nasceu, é difícil acreditar que em 1956, no começo do reinado de Elvis Presley, em Nova Orleans, no Sul do país, o Conselho de Cidadãos distribuiu um panfleto com o texto: "“Atenção! Pare. Ajude-nos a salvar a juventude americana. Não comprem esses discos de negros (se vocês não querem atender negros em seus estabelecimentos comerciais, então não ponham discos negros em suas radiolas e não escutem discos negros nas rádios). Os gritos, as letras idiotas e a música selvagem desses discos enfraquecem a juventude branca da América. Liguem para os locutores das estações de rádio que difundem este tipo de música e reclamem. Não deixem seus filhos comprarem ou ouvirem esses discos de crioulos”".
Continuam ouvindo até hoje.

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